Deslocar o mal é explicá-lo? Agência, dependência ontológica e permissão divina nas respostas religiosas ao problema do mal
Pablo Dietrich
Revista Tópicos, v. 4, n. 37, p. 1-59, 2026
Este artigo examina, em chave comparativa, as estratégias pelas quais tradições religiosas deslocam a agência do mal de um princípio supremo para agentes subordinados, para a liberdade criada, para uma estrutura dualista, para a privação, para bens superiores, para a permissão divina ou para uma resolução escatológica. Propõe-se uma grade analítica composta por três níveis de atribuição — autoria moral, causalidade próxima e estrutura permissiva — e uma condição de fundamento ontológico, e sustenta-se que uma resposta situada num nível não constitui, sem argumento adicional, resposta a uma pergunta pertencente a outro. As estratégias são reconstruídas na sua forma mais forte antes de examinadas: o dualismo iraniano, a redistribuição documental da iniciativa do dano no judaísmo antigo e do Segundo Templo, a sequência cristã da privação à permissão, e o par muʿtazila/ashʿarismo com a doutrina da aquisição. O resultado é limitado e calibrado: cada estratégia esclarece uma dimensão real do problema, nenhuma é mero subterfúgio, e nenhuma delas, isoladamente, dissolve a questão justificativa que recai sobre a estrutura permissiva — a saber, por que um fundamento perfeitamente bom cria agentes defectíveis, lhes confere poderes causais, conserva-os, mantém as leis que tornam o dano eficaz e não intervém. A conclusão não é que as teodiceias fracassaram, mas que a pergunta do título recebe resposta variável conforme a dimensão do mal que esteja em exame.
Como citar (ABNT)DIETRICH, Pablo. Deslocar o mal é explicá-lo? Agência, dependência ontológica e permissão divina nas respostas religiosas ao problema do mal. Revista Tópicos, v. 4, n. 37, p. 1-59, 2026. DOI: 10.70773/revistatopicos/790274409.