Entre a provação e o retorno: teleologia narrativa, sofrimento e religião diante da não correspondência da experiência
Pablo Dietrich
Revista Tópicos, v. 4, n. 38, p. 1-40, 2026
O problema narrativo do sofrimento não está apenas na sua explicação, mas na relação entre a perda e a sua resolução. A experiência histórica não garante que as perdas sejam restituídas, que o sofrimento forme quem o atravessa ou que os projetos cheguem ao fim, e chama-se não correspondência narrativa a essa falta de garantia. As narrativas respondem a ela de quatro modos, restituindo o que se perdeu, transformando a perda em formação, transferindo a outro o fim negado a quem sofreu ou adiando a resolução, ou então deixam a lacuna aberta; e esses modos se distinguem conforme o sujeito que recebe a resolução, o tempo em que ela ocorre e o horizonte em que é situada, seja a biografia, a história de um povo ou uma ordem transcendente. O padrão heroico descrito por Joseph Campbell, despido da pretensão de universalidade, é o exemplo mais nítido da transformação. As tradições religiosas importam aqui por uma razão precisa: além de estender a resolução à descendência e ao povo, o que narrativas sem religião também fazem, podem mantê-la aberta para o próprio sujeito, ou para a ordem do mundo, depois da morte. A morte de Moisés fora da terra prometida e o epílogo de Jó são lidos como objeções a essa hipótese. No primeiro, o fim que falta ao indivíduo se cumpre no povo; no segundo, a restituição de tudo o que podia ser restituído deixa à vista o que não podia. Em nenhum dos dois casos a ampliação do horizonte elimina a não correspondência: ela a desloca ou a preserva. Descrever o que essas narrativas fazem não decide de onde vieram as crenças que as sustentam nem se são verdadeiras.
Como citar (ABNT)DIETRICH, Pablo. Entre a provação e o retorno: teleologia narrativa, sofrimento e religião diante da não correspondência da experiência. Revista Tópicos, v. 4, n. 38, p. 1-40, 2026. DOI: 10.70773/revistatopicos/792273654.