Da extispícia ao profeta big data: predição, aplicação e a estrutura do decidir
Pablo Dietrich, Maurília Gabriela da Silva Dietrich
Revista de Geopolítica, v. 17, n. 9, e3493, 2026 · com Maurília G. S. Dietrich
Este artigo sustenta que a predição, em qualquer dos seus substratos históricos, é uma operação sobre o presente que toma a forma de um enunciado sobre o futuro. A demonstração é comparativa: cinco práticas separadas por milênios — a extispícia mesopotâmica, o profetismo de Israel, a astrologia calculada da Europa medieval, a projeção iluminista do futuro planejável e a predição algorítmica contemporânea — são submetidas ao mesmo teste de quatro perguntas: que signo fala pelo amanhã, quem está autorizado a lê-lo, que decisão presente ele libera e o que a prática faz com ele quando é desmentido. A série exibe a permanência da relação entre previsão e decisão e a capacidade da prática interpretativa de absorver o desmentido sem devolver a decisão à incerteza de onde partiu, apesar da transformação completa dos signos, dos intérpretes e das técnicas. Sob essa permanência está uma condição: o momento do ato é fixado pelo mundo, e aquilo que decidiria a questão — o resultado — só existe depois do ato, donde a assimetria entre fundamento parcial e autoria integral. A partir da tese gadameriana da aplicação, argumenta-se que a incidência prática não é propriedade autossuficiente do signo; o seu desaparecimento no momento do caso não significa, portanto, eliminação, mas anterioridade ou sedimentação da determinação — com a consequência de que a execução pode produzir o ato sem reabrir a pergunta situada: o caso deixa de ser encontrado e passa a ser instanciado, a alegação perde destinatário no instante em que importaria, e a autoria é retirada da cena sem ser transferida.
Como citar (ABNT)DIETRICH, Pablo; DIETRICH, Maurília Gabriela da Silva. Da extispícia ao profeta big data: predição, aplicação e a estrutura do decidir. Revista de Geopolítica, v. 17, n. 9, e3493, 2026. DOI: 10.56238/revgeov17n9-130.